TRIBO URBANA: indígena fala sobre desafio de viver na cidade

Viver entre a aldeia e a cidade é o grande desafio de Dona Ana. Em sua tribo urbana, uma casa situada no bairro São José, no município de Vilhena (RO), ela despeja memórias de seu passado, enquanto tece colares nambiquaras, arte que aprendeu com sua mãe e que hoje é fonte de sustento para sua família. Na aldeia ela é discriminada entre os seus por manter contato com gente branca, mas ela não se abala e segue de colar em colar, de lembrança em lembrança.

Ela está sentada em uma pilha de seis tijolos, com as pernas grudadas uma na outra, com a saia no meio, em sinal de recato. Nos pés, chinelos de tiras, desses comumente conhecidos como “havaianas”. Cobrindo o busto, uma camisa estampada com flores vermelhas. Os cabelos negros e oleosos estão presos na parte traseira de sua cabeça por um pente. A expressão da senhora é de concentração, com algumas rugas se formando nos cantos de seus olhos amendoados, que revelam sua ascendência indígena. Ela trabalha atenta em mais de seus colares. Os dedos, um pouco tortos, amarram, esticam e puxam uma linha de anzol, repleta de pequenas contas, que não são de vidro, plástico ou outro produto sintético, são de coquinhos.

O local de encontro é Vilhena, cidade ao sul do Estado de Rondônia, bairro São José, um dos mais antigos do município. As mangas já começam a amarelar nos pés, o que atrai os olhares cobiçosos de pessoas que passam em frente à casa de Dona Ana. Ela continua concentrada no seu afazer diário. Paciência é o que não falta a ela. De conta em conta ela preenche o fio do anzol, que vai ganhando forma, vida. Com voz mansa e um leve sotaque andino, ela nos convida a entrar em seus domínios. No quintal, algumas galinhas ciscam o terreiro em busca de alguma novidade anelídea, sob o olhar atento de um galo robusto e mal encarado. Uma pequena casa de madeira se ergue ao fundo, na qual Dona Ana está escorada. Um grupo composto por seis entrevistadores, integrantes do projeto Hatisu, que tem por objetivo resgatar a história oral de personagens pouco conhecidos do público, chega ao local, dois em uma moto e os outros quatro em um velho carro vermelho. Estão ali para conhecer um pouco sobre o processo de confecção de colares nhambiquaras. Com voz mansa, e um leve sotaque andino, ela convida todos para que entrem em seus domínios. Todos se acomodam de alguma forma, sobre tijolos e começa a sessão de perguntas.

_Como que a senhora corta a casca do coquinho para ficar bem pequenininho? –  pergunta um dos interlocutores, interessado no processo de confecção da peça artesanal.

_A gente corta com faca, coloca um ferrinho no meio, e faz um buraquinho, depois vai retocando. Esse daí é feito cortado com faca – mostra várias voltas de colares de cor escura  na mão esquerda – Cada voltinha dessa eu vendo a dez reais! – já informa o valor de seus trabalhos.

_E dá muito trabalho? – indaga o outro entrevistador.

_Dá muito trabalho – a senhora balança a cabeça em sinal de concordância.

_Quantos dias a senhora demora para confeccionar uma volta dessa ? – o entrevistador aponta para as várias voltas do colar que Dona Ana segura.

_Viche, muita demora! Até que a gente vai dividir as partinhas, depois fura com o arame, depois arredonda com a faca, aí depois coloca na linha, leva bastante tempo. Depois de pronto, ainda lixa ele todinho – descreve metodicamente alisando a peça já acabada, pronta para a venda – Quando não tem muito serviço, em uma semana eu faço vinte, trinta voltas de colar – diz Ana esticando outra linha de anzol e emparelhando as pequenas argolas ainda opacas.

_ A senhora não faz anel não?

_Eu faço. Só que eu não tenho os preparos, eu não tenho os coquinhos para fazer. No mês de janeiro, fevereiro, tem de outro coquinho, de outra fruta que cai, uma fruta marronzinha.

Dona Ana, tinha um nome indígena, mas hoje prefere ser chamado pelo “nome de branco”.  “A gente acostuma, por que sempre trocam o nome de índio por nome de branco, então a gente acostuma com o novo nome. E aqui na rua o povo não chama com o nome de índio, então quando me chamam de Ana eu respondo”. Ela é Nhambiquara, pertencente à tribo Mamaindê. Viveu grande parte de sua vida na cidade de Vilhena, acompanhando o processo de ocupação dos territórios indígenas pelos migrantes de outros estados. É testemunha viva do deslocamento do seu povo, o que ocasionou a destruição de sua família indígena. Com a mãe aprendeu o ofício de confeccionar colares, pulseiras e anéis de materiais encontrados nas florestas, como coquinhos e ossos de animais. “Desde criança faço isso. Minha mãe morreu e eu fiquei sozinha. Eu não fui criada na aldeia, eu fui criada por aqui [em Vilhena, zona urbana]”. Do pai, Ana nunca teve notícias. Sua mãe não tocava no assunto. “Eu perguntava sobre o meu pai e ela: “Que pai o quê, você não tem pai. Seu pai sou eu, sua mãe sou eu”.

O vento balança as folhas da mangueira. De repente um fruto se desprende do galho e cai no chão de terra arenosa. Ao lado direito da casa de três cômodos um pequeno cercado feito de tijolos tenta conter mais de vinte pintinhos em vão. Gemidos de um cachorrinho vindos do fundo do quintal podem ser ouvidos.Também é possível visualizar um fogão de barro e algumas panelas no fogareiro. Próximo ao pé de mangueira um sofá estrebuchado serve de abrigo temporário para uma galinha. Um dos entrevistadores do Projeto Hatisu, pede confirmação do nome do coco utilizado na confecção dos colares.

_Esse coquinho é tucum?

_É o tucunzinho, daquele rasteirinho – responde a senhora com prontidão.

_Ah, ele tem uma massinha em volta. Serve pra alguma coisa?- volta a perguntar o interlocutor.

_Serve nada. Ele é azedo, azedo, azedo – diz diminuindo o tom de voz – Agora tem tucum mais bom, que é mais gorduroso, que é bom de comer.

_Nós despedreja [quebra o coquinho em pequenas partes] todinho – mostra o coquinho utilizado para a confecção dos colares nhambiquaras.

_A senhora me arruma um? – pede o interlocutor de olhos claros e expressão risonha.

_Daí a gente descasca ele todinho pra fazer desse aqui ó – Ana mostra o colar pronto que está em um de seus braços.

_ Ah, esse é o tucum também – interpela o visitante.

_É, esse é o tucum. Daí esse aí tem que furar no arame pra fazer desse aqui  – mostra de novo os colares que estão em um dos seus braços.

Um toque polifônico de celular ecoa no ar. Várias vezes. Uma, duas, três…

_É o telefone da senhora que está tocando? – pergunta um dos entrevistadores.

_Ah deve ser!

Dona Ana levanta rapidamente, a saia que estava entre as suas pernas retomam as curvas da pequena senhora que se encaminha até o interior da casa, em um passo apressado, para atender ao telefone celular. Com as várias voltas dos colares em sua mão ela segura o celular de cor vermelha e conversa com um de seus parentes, como contaria depois para os visitantes. No retorno da conversa ela exprime um desejo:  “Eu quero passar minhas férias tudo em Cabixi, com minha família”. Os entrevistadores a questionam se os seus familiares moram no município ou na aldeia. Ela diz que eles moram na aldeia e acaba confidenciando a sua preferência pelo local. “Eu gosto mais de lá. Por que lá é mais gostoso, tem o rio que a gente banha à vontade. E a gente vai pra roça. Eu tenho roça lá, tá tudo plantadinho lá. Daí minha filha falou:  ‘Se eu tiver abacaxi eu mando pra senhora’, por que eu tenho muito abacaxi lá, banana. Quando eu vou lá eu trago uma carriolada de banana, abacaxi”.

_E a renda da senhora é só com artesanato ou a senhora vende outras coisas também?

_Quando eu não tenho outras coisas, quando eu não tenho artesanato, daí a gente vende abacaxi, banana, farinha da roça.

_Mas a senhora já se aposentou?

_Já me aposentei sim. Eu não posso trabalhar muito porque sofro pressão alta. Não posso passar raiva.

_Quem cuida da roça da senhora?

_Meus meninos. Minhas meninas, meus filhos. Eu tenho filho homem que mora na aldeia. Eu tenho outro aqui em Vilhena, o Guilherme, mas só que é casado com branca e a branca não gosta de ir na aldeia. Foi uma vez e saiu de lá desconjurada e eu nunca mais vi ela na aldeia. Viu como é bom casar com índio? Sabe que índio mora na aldeia né? – diz isso intercalando com uma risadinha maliciosa.

A convivência com a mãe indígena foi interrompida logo nos primeiros anos de vida de Ana. “Minha mãe teve neném, e ela tinha costume de comer as coisas que não deve, daí ela comeu e deu hemorragia nela. E eu fiquei com meu irmãozinho, por que naquela época não tinha ninguém pra adotar”, diz com expressão de quem faz força para resgatar um lembrança tão longínqua. “Aí como eu fiquei sem pai, nem mãe, na mão dos outros, eu fui viver com um e com outro e a senhora dona dessa casa que eu moro, era boliviana, ela me pegou com sete anos, já era grandinha, e passei a conviver com ela. Quando ela me deixou eu estava com 49 anos”, lágrimas começam a brotar nos cantos dos olhos de Ana, que lembra que a mãe adotiva se chamava Maria.

“Ela foi uma mãe pra mim, por que a única pessoa que deu ajuda foi ela, foi como se Deus me desse outra mãe. Eu gostava dela, amava ela, e ela falava: ‘Quando eu morrer não quero que você se afaste desse lugar aqui. Aqui você vai viver para o resto da sua vida. Aqui você vai lembrar de mim’. E eu estou aqui até hoje”, diz com a voz embargada, quase impossível identificar suas palavras.

Os interlocutores questionam se a senhora que adotou Ana era casada, ao que ela responde: “Ela era ajuntada com um paraguaio. E o paraguaio era ruim pra ela, coitada, nem sei como eles conviviam. Mas eu tinha ele como um pai pra mim. Ele era tudo pra mim, coitado. E ele morreu também. Ele morreu primeiro e ela morreu depois. Nossa, eu choro no dia do aniversário da minha mãe de criação, dia 30 de agosto. Eu sinto falta dela, por que a gente conviveu muitos anos, deixou eu formada, a gente não esquece. Eu amava muito ela”, passa a mão no rosto para enxugar as lágrimas.

Um dos mais conhecidos pontos turísticos de Vilhena, e por conseguinte de Rondônia, e que diga-se de passagem está em péssimo estado de conservação, foi um dos locais em que Ana morou em sua infância. “Eu morava ali no Museu [se referindo ao antigo museu Casa de Rondon]. Ali no museu era uma aldeia indígena. Ali na cabeceira do rio Pires de Sá, não, não era Pires de Sá. Tinha o nome de Estaca Zero. Ali na cabeça de buritizal [Estaca Zero], ali era outra aldeia também. Tinha uma oca bem grande. Lá era uma aldeia bem grande”, relembra situando os entrevistadores geograficamente no espaço territorial do município.

_Falaram que ali tinha cemitério indígena. É verdade? – pergunta um dos entrevistadores.

_Tem. Ali tem uma tia minha, outra que morreu no parto. Ela estava com febre, pegou sarampo. Ela não tinha ido ganhar neném, daí ela foi pra casa queimando de febre, e morreu com a criança dentro da barriga. Agora ali na aldeia velha está minha mãe, minha bisavó, minhas três tias. Era muita gente ali.

Para aproveitar a ocasião em que histórias do passado estam vindo à tona, inclusive da história de Vilhena, os entrevistadores questionam Ana sobre as guerras entre indígenas na região.

_A senhora lembra de algum conflito entre os nhambiquaras e os cinta-largas?

_Eu lembro.

_Como que era?

_Eu me lembro que meus parentes eram muitos. Aqui nessa Vilhena tinha mais de cinco mil índios, inclusive negrotê, mamaindê e sabanê. Aí os cinta-larga veio guerrear, matar. Os cinta-larga mataram muito índio, vinham matar, carregar menina moça da aldeia pra ficar com eles.

_E a senhora chegou a presenciar algum ataque deles?

_Já. Eu tenho sinal flechada bem aqui – aperta o lado da perna esquerda – Eu era pequenininha e minha mãe correu comigo, daí pegou flecha na minha mãe, varou ela e pegou bem aqui em mim – diz apontando no corpo, onde levou a flechada –  Me dói até hoje. Tem vez que me dói tanto.

_E eles comiam as pessoas? Como?

_Comiam igual cachorro, arrancavam os pedaços pra comer. Só deixavam os pés, as mãos e a cabeça. Agora nhambiquara não, só mata pra magoar mesmo.

O cenário onde as pessoas viviam era um pouco diferente do que é hoje. Os igarapés e rios que cortam o município de Vilhena eram límpidos, como conta Ana. “Eu bebia água do rio, nós pescava, pegava cada trairão desse tamanho”, ela estica os braços quase um metro na horizontal para indicar o tamanho do peixe .  “Nós vinha lá do Museu até aqui no rio pra pescar. Por causa do rio que era limpinho, limpinho que era”, diz ela em tom mais agudo, com os dentes cerrados, traçando uma reta imaginária de um canto ao outro, indicando a rota  do rio. “Era limpo mesmo”, conclui.

Voltando para os dias atuais, entre uma memória e outra resgatada, Dona Ana vai mostrando aos visitantes como confecciona os colares. Além de transformar o coquinho de tucum em vários pedaços minúsculos, eles são lapidados com faca, até ganharem a forma aredondada. Depois são furados com um arame por onde será passada uma linha de anzol resistente que deixará as pequenas contas vegetais alinhadas, mas não pense que a peça está acabada e pronta para o uso. Ela ainda é lixada e posteriormente receberá o polimento feito de uma forma inusitada.

_Essa madeirinha é pra lixar? – pergunta um dos entrevistadores.

_Não.  É pra alisar. Fica brilhando.

Ana pega os dois pequenos pedaços de madeira, coloca uma ponta do colar entre os dedos do pé e a outra ponta segura com uma das mãos. Com a outra mão segura os pedaços de madeira e começa a passar sobre o colar para dar brilho à peça.

_E essa madeira que a senhora usa pra lixar é uma madeira normal, diferente, ou qualquer tipo de madeira serve?

_Garapeira. A gente usa essa. Isso é pra alisar, pra ficar brilhando – diz mostrando para um de seus interlocutores como se quisesse provar que aquela atividade que desempenhara recentemente fizera dar brilho à peça indígena.

A  artesã não costuma usar os adornos que confecciona. “Só uso pulseira e anel. Já aquele para o pescoço só uso quando eu vou em festa. Depois arranco tudo, por que eu não acostumo”, afirma passando discretamente a mão pelo pescoço.

Os colares nhambiaquaras, segundo boatos que circulam entre os moradores da região, só poderiam ser usados por caciques, ou seja, por quem detivesse poder na aldeia. Mas essa versão é contestada por Dona Ana.

_O que esses colares significavam pro pessoal da tribo?

– São as nossas jóias

_ Mas é algum tipo de proteção contra alguma coisa?

_Não. É só enfeite mesmo.

-É verdade que só quem usa isso em volta do pescoço é cacique?

_Não, usa qualquer um. Branco é que inventa que só o cacique que usa, todo mundo usa – diz em voz baixa, rindo com o canto da boca da suposição exposta pelos entrevistadores.

A educação religiosa ficou à cargo da mulher que adotou Ana, depois da morte de sua mãe. A jovem índia, hoje com sessenta e três anos de idade, foi criada no catolicismo. É devota de Nossa Senhora Aparecida, e frase ou outra sua  é ouvida uma invocação ou agradecimento a Deus. A vida na cidade trouxe alguns desafios que Ana tenta superar. Muitos pensam que ela sofre preconceito em sua maioria de homens brancos, mas a indígena revela que sofre mais discriminação entre os seus, que não valorizam a sua moradia urbana da qual muitas vezes fazem uso. “Tem muitos parentes que falam: ‘Ah por que fulano mora na cidade?’, mas não adianta falar por que os meus parentes que vem de fora tem lugar aqui, tem um local, pára aqui, e eu tenho que agradecer, por que eu tenho um lugar aqui na cidade pra segurar eles, pra acolher eles, mas não, eles não agradecem”, diz com um leve nota de insatisfação na voz completando: “ Sou discriminada pelos meus parentes, e eu falo: ‘vocês podem me discriminar, mas o pai lá do Céu não vai me discriminar, por que é ele quem me dá força pra mim viver até hoje’”.

Chega a hora da equipe de entrevistadores ir embora. Antes disso, é preciso acertar o valor das peças que serão compradas de Dona Ana.

_Então vamos ver quanto que dá aqui? – pergunta o senhor de olhos azuis – Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove voltas. Nove vezes dez. Noventa [reais].

_Quanto que a senhora vai fazer esse? –  mostra um colar não finalizado, opaco, sem o brilho daquele que está no braço da índia.

_Faço dez a volta.

_A senhora vai cobrar o preço de um? – o entrevistador estica o colar com os dedos.

_É, o preço de um- diz Ana enfática.

_Então aqui deu cem – conclui o interlocutor, que mostra alguns coquinhos para a índigena com a intenção de perguntar o quanto ela cobra.

_Cinco [reais].

_Cento e cinco, certo? – pergunta o entrevistador em tom de riso.

_E vocês vão pagar as mangas? _ pergunta  em tom de brincadeira o homem de olhos claros para os outros entrevistadores que tentam arrancar mangas. Branco e índia riem da piada.

_Cinquenta, setenta, noventa, cem, cento e cinco – o interlocutor coloca o dinheiro nas mãos de Ana parecendo o apresentador Silvio Santos em uma de suas muitas brincadeiras com o auditório.

O homem de olhos azuis levanta com os braços cheios de colares, guarda a carteira no bolso. Os outros entrevistadores estão se deliciando com as mangas arrancadas. A indígena se despede dos visitantes. Da janela direita da casa irrompe um garoto com expressão facial curiosa e um pouco sonolenta. É um dos netos de Ana. Ele se envergonha e volta para o interior da casa. Um dos entrevistadores vai de mansinho até chegar bem próximo da janela na expectativa de encontrar o curumim e poder fotografá-lo. De supetão o menino reaparece, a câmera dispara. Mai um registro. Todos se retiram da pequena tribo urbana, um corpo estranho em uma das cidades mais urbanas de Rondônia: Vilhena.