Reajuste gera fúria, possíveis demissões e empresa joga na conta do governo

Aumento, segundo empresa, é de 25.34%

A Energisa diz que o reajuste será para pagar despesas com compra de energia e pagamento de impostos

O reajuste de energia promovido pela Energisa, empresa que administra as Centrais Elétricas de Rondônia (Ceron) chegou nesta quinta-feira, 7, às caixas de correspondência do rondoniense. As redes sociais ficaram inundadas de reclamações e manifestações contra o reajuste na tarifa, mesmo a empresa dizendo que o aumento começou a ser aplicado em dezembro, a partir do dia 13. O reajuste de acordo com a fornecedora é de 25.34%.

O assunto ainda é sal do café de muita gente, como o caso da empresária Nayana Rúbia. Em postagem pelas suas redes sociais, publicou a conta de sua empresa referente ao mês de janeiro cujo valor total é de R$ 8.683,52. O “presente de carnaval” que recebeu foi uma conta de R$ 11.445,74. O susto que a empresária tomou ao chegar o boleto foi tamanho, que em desabafo chegou a dizer que “trabalhar honestamente está cada vez mais difícil”.

Em conversa com a equipe de reportagem do site Gazeta Amazônica, a empresária disse que ficou atônita com o valor e não consegue esboçar nenhum tipo de reação. “Como vamos sobreviver? No mês anterior nosso comércio teve um gasto de 2 mil quilowatts a mais e a conta desse mês veio simplesmente 30% mais cara gastando menos. Como assim? Como pagar um aumento explorador desses? Como repassar isso pro meu cliente? Isso é simplesmente desumano. Não gosto de exposição sobre reclamações, mas sinceramente como se calar a uma situação dessas? Precisamos fazer alguma coisa! Um estado rico como o nosso em relação a energia e sermos roubados assim? Isso é inaceitável. Hoje fiquei sem reação ao ver tamanha exploração”, desabafa.

Em vídeo disseminado pelo aplicativo WhatsApp, um empresário do município de Ouro Preto do Oeste, que se identifica apenas como proprietário da empresa Agrotech, convida seus amigos para um manifesto em relação ao reajuste de energia. “A fatura do quilowatts/hora subiu de pouco mais de R$ 0.64 para pouco mais de R$ 0.84. A Energisa disse que iria investir R$ 480 milhões em Rondônia, mas a que preço eles vão investir isso?”, questiona.

Empresária publica comparativo de duas faturas. Na primeira ela consumiu mais quilowatts hora e pagou menos. Muito menos

O empresário chama atenção do governador Marcos Rocha (PSL), bem como de seu assessor, Marcão Sucão (PSL) que foi um dos defensores da campanha do presidente Jair Bolsonaro (PSL) na região de Ouro Preto. “Nós não vamos admitir isso. Vamos pra cima!”, instiga. Um empresário de Vilhena que pediu para não ser identificado diz que o susto que tomou quando recebeu a conta o fez rever todo o custo operacional da sua empresa. “É possível que eu reduza o número de funcionários. Infelizmente não podemos repassar esse valor na integralidade ao consumidor, tornaria o negócio inviável. O jeito vai ser demitir”, lamenta-se.

Alguns membros da classe política do estado já se manifestaram contrários ao reajuste, mas até agora nenhuma medida reversa foi tomada.

OLHA QUE INTERESSANTE

A equipe de reportagem do site Gazeta Amazônica foi até ao escritório da Ceron nesta quinta-feira, 7, para ouvir a versão da empresa acerca do assunto. A Jornalista fora informada que absolutamente ninguém pode falar sobre o reajuste, exceto pessoas autorizadas na capital, Porto Velho.

No site da Eletrobrás Rondônia há um vídeo (que você pode conferir a íntegra logo abaixo desta matéria) que relata detalhadamente o formato de produção energética do Brasil e principalmente como é feita a distribuição do recurso financeiro arrecadado pela Ceron. O que mais intriga – vale ressaltar que esta é a versão que está presente no vídeo – é o fato de que o governo leva uma parte considerável do bolo, ou seja: o reajuste é excelente para o governo. A declaração eletrônica da Energisa fala que a Ceron apenas recolhe o recurso arrecado e faz a distribuição da energia elétrica (a última etapa do processo).

Recolhida a verba, a tarifa é dividida em duas parcelas chamadas de “A” e “B”. Na primeira estão os custos relacionados à geração e transmissão de energia (as duas primeiras fases do processo) bem como o governo. Na segunda parcela estão inseridos os custos da distribuição que cabe à Ceron.

Ainda de acordo com o vídeo, a parcela “A” fica com 79.33% de toda a tarifa (são chamados recursos não gerenciáveis, ou seja: quem administrar a Ceron tem que repassar este total sem choro nem vela). 26.67% do total pertence ao recurso que a Ceron administra e é utilizado para cobrir o custo operacional da distribuição e manutenção, ampliação e modernização da rede de distribuição.

A Energisa diz que um dos motivos para o aumento é justamente o gasto para comprar a energia. De acordo com a empresa, 24.57% do total do reajuste – o que equivale a 96.96% do total do aumento – é repassado para a compra de energia e ao governo. A Ceron, de acordo com sua versão, fica com 0.77% deste valor.

Utilizando uma conta de R$ 100 como referência fica mais fácil entender o “racha” do dinheiro. De acordo com a Ceron, 57.34% deste total é destinado à parcela “A” – ou seja para custos de geração, transmissão e encargos setoriais. R$ 21.99 desta conta são repassados ao Governo através de impostos, enquanto R$ 20,60 ficam para a Ceron. Nota-se que o Governo leva boa parte deste valor, o que demonstra que o reajuste é vantajoso para os cofres públicos.

O que resta é apenas um cobertor curto que deve ser utilizado para pagar funcionários, despesas e ainda manter todo o sistema de distribuição funcionando.

Confira abaixo o vídeo institucional da Energisa, bem com do empresário de Ouro Preto do Oeste:

Empresário chama população para protesto contra reajuste
Vídeo institucional da Ceron explicando como é feita a distribuição do dinheiro arrecadado com as tarifas

Foto: Cidades na net

Vídeo 1: WhatsApp

Vídeo 2: Ceron/Energisa