Dia 8 de março também representa busca pelos sonhos e luta por igualdade

Cada uma com sua história compõem um relato motivador

Quando se comemora o dia das mulheres, cabe uma reflexão sobre a importância delas na sociedade e quanto respeito ainda é necessário para que possam continuar seguindo em frente

Mais um dia 8 de março chegou e os namorados, maridos, amantes, amigos próximos e familiares não perderam tempo para presentear e homenagear a mulherada. Empresários do ramo de calçados dizem que o dia dá um bom gás nas vendas. Algumas empresas garantem que a data comemorativa gera lucros muito maiores que o dia das mães e festas de fim de ano. Os floristas também comemoram a data com muita alegria.

Uma das homenagens mais procuradas é justamente as flores, meio de simbolizar a leveza e delicadeza das mulheres. A data também é muito esperada por proprietários de restaurantes, hotéis e motéis, afinal de contas mesmo não sendo dia dos namorados, o amor também costuma estar no ar.

O dia 8 da modernidade se tornou uma data bastante comercial, com caráter comemorativo voltado exclusivamente ao lado meigo e delicado das mulheres. Entretanto, a data vai muito mais além: marca toda uma trajetória de lutas, busca pela igualdade, represálias e muitas mortes. Há tempos as mulheres vêm lutando por igualdade de direitos e ao longo desta trajetória ainda sofrem com as injustiças.

Dados divulgados por grupos que buscam a igualdade feminina apontam que mesmo sendo antiga, a luta por direitos das mulheres ainda está muito longe de uma posição justa. Cerca de 135 mulheres são estupradas diariamente no Brasil, sendo que 65% dos casos acontecem em casa. Uma clara manifestação de desrespeito com elas.

No mercado de trabalho a diferença entre homens e mulheres – principalmente no que diz respeito a salários – também é alta. Em que pese o fato de que há mais mulheres com níveis superiores de estudos, pesquisas mostram que aquelas que têm maior nível de escolaridade sofrem muito mais assédio do que quem não conseguiu ir tão longe profissionalmente. 

A delegada Solangela Guimarães explica que o estado de Rondônia foi o segundo do país a instalar a Delegacia de Atendimento à Mulher. De lá pra cá, para que elas possam seguir suas vidas com respaldo e segurança, a Polícia Civil tem intensificado suas atividades a ponto de oferecer assistência psicológica, social, além da própria segurança a quem denuncia seu agressor.

Um dos avanços em prol da seguridade da mulher, de acordo com a delegada, são os reforços relacionados a eficiência da Medida Protetiva – ação que restringe contato do agressor à vítima. “Hoje em dia até mesmo uma declaração de amor quando há medida protetiva imposta pode ser considerado quebra da medida e resulta em prisão em flagrante”, explica a delegada. Para isso, entretanto, a polícia tomar ciência de que a mulher vem sendo procurada mesmo com a ação imposta.

 A frentista que não tem medo de se abastecer de sonhos

“Na outra vida quero ser homem, moço”, diz uma frentista que presta serviços em um posto de combustíveis no município de Candeias do Jamari – município que fica a pouco mais de 20 quilômetros da capital, Porto Velho. Indagada sobre o porquê, ela responde de forma bastante direta: “Homem não cuida dos filhos, não precisa lavar roupa. Vir com rosa no dia 8 é fácil. Queria mesmo que meu namorado cuidasse da minha casa por uma semana”, brinca.

Convidada a se tornar uma personagem pública desta reportagem, ela declina do convite, pede anonimato e diz que sua vida não foi fácil. Começou a trabalhar aos 10 cuidando de crianças menores. “Quando voltava pra casa ainda tinha serviço me esperando”, relembra. “Eu não sei muito bem explicar o que significa o dia das mulheres pra mim, mas gosto porque sou paparicada pelo meu namorado”, diz.

Aos 20, ela sonha em cursar a faculdade de Direito, muito embora esteja longe da escola e de uma rotina de estudos adequada. “Eu sei que é difícil, mas não custa sonhar. Preciso cuidar do meu filho. Estou estudando no meu tempo livre. Não sei se vou conseguir Direito, mas vou conquistar minha faculdade”, arremata. Seu nome? “Faz isso comigo não. Tenho vergonha. Prefiro só falar minha história”, pede.

Aqui o Capitão Nascimento usa batom e não pede pra sair; “ele” manda

Joelma é empresária do ramo de segurança

Se a definição “sexo frágil” já se tornou démodé, pior ainda pensar que mulher não é capaz de garantir a própria segurança. A empresária Joelma Braga Moreno cuida de si mesma e também dos outros. Dona de uma empresa de segurança em Porto Velho, ela conta que entrou no ramo por indicação de um amigo e que foi treinada estilo Tropa de Elite durante 15 anos pelo cara que lhe deu a oportunidade de entrar no ramo.

Este empresário, segundo ela, sempre optou em contratar mulheres para cargos tipicamente masculinos. “Até os últimos dias de sua vida me pediu que o que me ensinou eu ensinasse a outras pessoas. Me ensinou que não existe concorrência, mas parceria”, relembra.

A empresária relata que decidiu montar sua própria empresa por acaso, quando deixou o antigo emprego e começou a tomar conta dos empreendimentos do pai, que a apoia, mas não gosta da profissão que escolhera.

Chamada de sargento pelo ex, Joelma explica que trata sua profissão com o máximo de seriedade e que não abre mão da qualidade na prestação de seu serviço. Questionada se é alvo de preconceito por ocupar um cargo tipicamente masculino, ela diz que sim, mas procura enfrentar a situação com profissionalismo. “Buscar aperfeiçoamento constante é a melhor forma de superar isso”, sugere.

É comum Joelma virar noites em claro para garantir o sono dos clientes, assim como é comum abrir mão de finais de semana para poder dar conta do recado que sua empresa exige. Conviver com a possibilidade de risco garante muita adrenalina e traz consigo grandes responsabilidades. “Mas eu não me arrependo das minhas escolhas”, garante.

O homem do campo que se cuide

Gabrieli está seguindo os passos do pai na agricultura

Os mais variados gostos femininos vêm garantindo um aquecimento econômico exponencial no Brasil. Balanços revelam que o setor de cosméticos vem crescendo de forma estratosférica: dados prévios apontam que em 2018 empresas do ramo faturaram até 118% a mais que no ano anterior. Crescimento semelhante vem sendo registrado no agronegócio.

De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) o setor tem previsão de aumento de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro, além de um crescimento de 4.3% no Valor Bruto da Produção (VBP). Se o homem do campo tem o que comemorar, devem abraçar as mulheres do campo, que aos poucos vêm ganhando espaço no agro e já detém boa parcela de ocupação do mercado.

Há um ano Gabrieli Horn deixou a faculdade de enfermagem para dedicar-se exclusivamente ao agronegócio. Atualmente, ela acompanha o pai, Gabriel, para se inteirar de cada detalhe dos negócios da família: “Atuo em todas as áreas do Agronegócio. Além de estar presente na parte administrativa, acompanho a parte prática também como plantio e colheita”, descreve sua rotina.

Gabrieli não se encontrou em outra área profissional
Foto: Vanessa Mansur

Gabrieli contou com o apoio da família e diz sentir-se respeitada. “Muitas pessoas acham que as mulheres não conseguem lidar com funcionários homens, e que não são atendidas da mesma forma quanto as ordens do que fazer. Não tenho problemas do tipo, e me sinto bastante respeitada”, conta.

Na lavoura, Gabrieli disse que encontrou seu caminho. “Estudei dois anos fora com objetivos opostos dos que tenho hoje e não me encontrei em outra área profissional. Surgiu abertura da parte da minha família para fazer parte da nossa empresa, comecei aos poucos e hoje tenho certeza que estou no caminho certo”, garante.

Para quem pensa que a missão de dar sequência nos negócios da família é apenas do filho homem, se engana. Assim como Gabrieli, a técnica em agropecuária e acadêmica de Gestão e Desenvolvimento de Agronegócio, Camila Gollo, é o futuro da empresa de sua família.

Camila sempre se identificou com o agronegócio

Ao lado do pai, Jair, Camila conta que sempre teve paixão pelo agronegócio e nunca escondeu sua vontade em dar sequência ao que a família construiu. “Hoje, com tão pouca experiência e no começo da minha carreira ao lado dele (seu pai) posso dizer com toda certeza que sou apaixonada pelo agro, de onde vem todo meu sustento e renovo as minhas esperanças por um país melhor”, diz.

Camila em trabalho de campo

Questionada sobre suas decisões e se teve problemas por conta delas, ela diz que precisou manter o “pulso firme das minhas escolhas desde o momento em que decidi fazer o curso técnico. Eu percebia a identificação que tinha com a área. Hoje em dia, eu não sei pensar e nem fazer coisas que não seja do ramo”, conta.

O sonho de ser mãe multiplicado por cinco

Gisa consegue manter sua rotina e cuidar dos filhos

“Às vezes parece que vou enlouquecer, mas nada que um banho e uma oração não resolva”, brinca a repórter Gislaine Muller Ribeiro ao contar sobre sua rotina. Aos 32 anos, Gisa, como é conhecida no Cone-sul de Rondônia conseguiu alcançar um dos objetivos de sua vida: ser mãe. E ela o alcançou cinco vezes.

Gisa se casou cedo e diz que sempre quis ter dois casais de filhos, mas pouco antes de fazer laqueadura, descobriu que estava grávida. “Tive a oportunidade de abrir mão da gravidez, mas não quis”, relembra.

A repórter conta que consegue muito bem ser mãe e mulher ao mesmo tempo: “Não deixo de ir pra baladas, de viajar, de fazer minhas coisas. A única diferença é que preciso me programar com alguns dias de antecedência”, conta. Cuidar de um filho é um grande desafio. De cinco, é uma maratona por dia.

Mãe se orgulha dos elogios que recebe nas redes sociais

Perguntada sobre as dificuldades do dia a dia, Gisa explica que tem sua rotina muito bem organizada. “Pela manhã estão todos na escola. Então aproveito para resolver o que preciso. Na hora do almoço, estamos todos juntos. À tarde trabalho com vendas e à noite nos reunimos novamente”, explica.

E como é sua vida afetiva com cinco filhos? “Não me atrapalha. As pessoas me conhecem e sabem da minha história”, diz. Gisa conta, no entanto que é comum conhecer pessoas novas que lhe encaram de modo diferente ao saber dos seus filhos. “Ficam me perguntando se são todos do mesmo pai, se recebo pensão. Não tenho problemas com isso e até brinco”, sorri.

O dia das mulheres pra Gisa deveria ser um pouco diferente: “Se mudassem um pouco o conceito e ao em vez de falar, fazer seria mais bacana”, opina. “Tenho o dia 8 de março como meu dia especial, mas lembro também que preciso provar diariamente o meu valor a todos de modo geral: que sou alto suficiente e que posso sim dar conta do recado sem precisar ter uma figura masculina”, arremata.

Quando não há limites para encontrar sua própria natureza

Jordana não esconde sua história e não tem medo de lutar pelo respeito

Sem medo de falar o que pensa e sem esconder quem é de fato, a vereadora Jordana Fonseca Ferreira (PSD) apresenta sua visão de mundo e principalmente o que pensa sobre o dia da mulher. Trans, a parlamentar disse que já enfrentou muito preconceito, mas que hoje em dia aprendeu a conviver com isso.

“Eu lido com o preconceito mostrando que sou superior a esses ataques. Não me deixo abater, venho tentando me superar a cada dia, não fazendo pelos outros, mas por mim”, diz. Questionada sobre como se sente dentro deste contexto, a resposta não poderia ser melhor: “Eu nasci pra brilhar, estou brilhando e vou brilhar sempre. O máximo que podem fazer é me respeitar, porque se me atacarem eu vou me defender”, dispara.

Jordana conta que o dia da mulher, em seu ponto de vista, deveria ser comemorado nos 365 dias do ano. “As mulheres têm que valorizar umas as outras e parar de vez com o machismo, de idolatrar alguns homens que não merecem sequer uma cuspida na cara”, defende.

“As mulheres têm que valorizar umas as outras”

Para ela, mulher combina com tudo, desde o fogão até mesmo com os cargos mais importantes da sociedade. “A mulher tem que ser o que ela quiser, da forma que bem entender”, defende.

Perguntada sobre os ataques sofridos pela prefeita do Município de Cacoal, Glaucione Rodrigues (MDB) pela internet – alguns chegaram a defender a ideia de que a prefeita deveria ser estuprada por não aceitarem a forma como ela vem gerenciando o município – e se esse tipo de conduta a assusta, principalmente por estar na política, a vereadora disse que “esse comportamento só assusta quando as próprias mulheres defendem ataques nesse sentido”, critica. A vereadora relata que durante a onda de ataques virtuais sofridos pela prefeita cacoalense, ela viu diversas mulheres apoiando a violência contra a chefe do poder executivo.

“Nasci para brilhar!”

Finalizando o bate-papo, a vereadora diz que as mulheres não precisam ficar esperando apenas um dia do ano para comemorarem sua existência. De acordo com seu entendimento, é necessário correr em busca dos seus sonhos e fazer valer tudo aquilo que faz seu coração bater mais forte.

A vereadora defende a ideia de que a mulher é um ser de suma importância na sociedade e que justamente por este fato deve correr atrás daquilo que pensa, sente e deseja.

É preciso deixa-las ir, afinal estão preparadas para o que der e vier

Há semanas, a equipe de reportagem do site Gazeta Amazônica vem buscando histórias, pensando em formas e meios de presentear as mulheres que honram esta página com seus acessos.

É muito difícil contar a história do dia da mulher sem falar de dor, sofrimento, injustiça. Assim como é impossível registrar e resumir em apenas uma personagem a pluralidade do conceito de ser mulher.

Diante das várias histórias que o site teve acesso, percebe-se que ser mulher é um desafio bem maior e inimaginável para quem simplesmente não consegue olhar e refletir acerca do assunto.

Há mulheres que tentam dividir seu tempo entre carreira, maternidade e casamento, há aquelas que acreditam que ser solteira é o melhor caminho pra si e há aquelas que ainda esperam que tudo que passa por seu sonho se torne realidade, ainda que a realidade seja tão dura a ponto de amedrontar seus sentimentos.

O que vem à tona neste dia 8 é que a sociedade ainda oprime a mulherada. Em que pese o fato de conseguirem avançar em muito nas suas conquistas de gênero, ainda sentem medo de caminhar pelas ruas, de entrar em elevadores e erguer a voz quando é necessário.

A sociedade, ainda que de forma automática, impensada, cultiva uma cultura que mantem as mulheres dentro de um conceito primitivo. É necessário cuidar, claro. Mas também é preciso deixá-las caminhar porque elas estão preparadas para o que der e vier.