Indígenas usam “batatão” contra picadas de cobras venenosas e contam que ela já salvou vidas

Lá, o médico disse que, infelizmente, a criança ia morrer, mas o pai retirou do bolso surucuína ralada e aplicou-lhe no ferimento e minutos depois, ele reagia bem”

 falta de soro antiofídico, uma raridade na Amazônia Ocidental Brasileira, indígenas Karitiana, Pacaás novos, Aruã, Tupari e outros usam seus próprios recursos medicinais para combater picadas de cobras venenosas.

O meio de combate é a surucuína (Eclipta alba), agrião-do-brejo ou erva-botão*, um tubérculo conhecido por batatão, de grande eficácia. O remédio pode ser aplicado ralado ou na forma de chá.

Casos de vítimas desenganadas por médicos ou daquelas que não resistiriam à viagem de cem quilômetros para chegar ao hospital, foram mencionados no último dia 19 pelo cacique Antônio Karitiana, durante palestras de educadores da Secretaria Estadual do Desenvolvimento Ambiental (Sedam).

A bióloga Gesiana Kamila Damasceno Miranda surpreendeu-se com o relato do cacique durante palestras sobre o Dia da Água, comemorado nesta sexta-feira (22). Ela fez palestra na aldeia central Karitiana, no ramal Maria Conga, a 40 quilômetros da rodovia BR-364, no interior do município de Porto Velho.

No momento em que Gesiana Kamila falava a respeito das especificações de serpentes peçonhentas de Rondônia e recomendava calma da vítima e de quem socorrê-la, Antônio Karitiana disse-lhe: “Aqui nós temos o nosso jeito” – referindo-se ao primeiro socorro à vítima atacada, antes que o estado de saúde dela se agrave.

Antônio contou que um indígena saiu às pressas da aldeia, levando o filho picado na perna, para o Centro de Medicina Tropical (Cemetron) em Porto Velho. “Lá, o médico disse que, infelizmente, a criança ia morrer, mas o pai retirou do bolso surucuína ralada e aplicou-lhe no ferimento e minutos depois, ele reagia bem, se salvou”.

A bióloga explicou, então, que cada serpente peçonhenta tem uma característica. “Assim, se por acaso não tiverem a batata, observem estas recomendações”, ela disse, distribuindo um folder** a cada indígena presente na Escola Estadual de Ensino Indígena Médio e Fundamental Kyowã.

“Lave o local da picada com água, evite contato com o sangue, verificando se existe algum objeto (anel, pulseira u cinto) que possa impedir a circulação sanguínea”, recomendou Gesiana Kamila. “O tempo é fundamental para não agravar o acidente, ou seja, quanto mais rápido melhor”, acrescentou.

O histórico de uso da surucuína ficou conhecido no início dos anos 2000. Segundo o médico francês Gil de Catheu, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Guajará-Mirim, cinco agentes de saúde Orowari dominam conhecimento da planta. “Foi o ancião Palitó Oro Não que ensinou os Oroin (Pakaas-novos) de Rio Negro Ocaia a usar a medicina tradicional na aldeia”, lembrou. “Um dos agentes voltou à aldeia e plantou a surucuína, que ali não existia”.

Surucuína e outras 160 espécies de plantas consideradas medicinais pelos seringueiros da Reserva Chico Mendes, no Acre, foram estudadas e catalogadas pelo engenheiro agrônomo Lin Chau Ming, do Departamento de Horticultura da Faculdade de Ciências Agrônomas do campus de Botucatu (SP).

Ming fez longa pesquisa de plantas regionais, morou com indígenas e seu trabalho fez parte da dissertação de doutorado defendida no final de 1995, no Instituto de Biociência de Botucatu.

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* Erva-botão é o nome popular de uma planta da família das Asteráceas, com propriedades medicinais sendo usada como cicatrizante e antiofídica. Também é chamada de agrião-do-brejo e surucuína.

** O informe ilustrado explica que as cobras picam para se alimentar e se defender. E relaciona seis espécies de jararacas, cuja ação venenosa é proteolítica, hemorrágica e coagulante, exigindo aplicação de soro anti-botrópico; uma espécie de cascavel, cuja ação do veneno é miotóxico,  coagulante e neurotóxico; e uma espécie de surucucu-pico de jaca, de igual ação venenosa, cujo soro recomendado é anti-laquético. Todas são da família Viperidae.

Nove espécies de corais pertencem à família Elapidae, que têm veneno neurotóxico e exige soro-elapídico.

Fonte
Texto: Montezuma Cruz
Fotos: Frank Néry, Daiane Mendonça e Arquivo Cimi-Guajará-Mirim
Secom – Governo de Rondônia