Moradores da Ponta do Abunã mostraram quem manda e colocaram a prefeitura pra trabalhar

Secretaria de educação precisou ser exposta ao ridículo para conseguir resolver o problema do transporte escolar; metade do semestre já se foi

Nessa semana, o estado de Rondônia de modo geral voltou suas atenções à manifestação dos moradores da Ponta do Abunã – região composta por distritos que dependem da capital, Porto Velho para se manterem administrativamente.

 O grupo “trancou” a BR-364 em protesto contra a prefeitura de Porto Velho, que diante da inércia da Secretaria Municipal de Educação (Semed), atualmente gerida por César Licório, não conseguiu, ainda, iniciar o ano letivo naquela região por falta de ônibus escolares.

É de se espantar que um promotor de justiça que conseguiu chegar ao comando do maior município do estado de Rondônia, empresário do ramo educacional, aliado da família Carvalho – proprietária de uma das maiores faculdades da Região Norte – não conseguiu prever o problema. Impossível acreditar que o grupo não conseguiu antever a situação.

Toras de madeira impediram a passagem

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que os distritos de Porto Velho, juntos, têm pouco mais de 41.6 mil habitantes. Se o prefeito fosse político de carreira seria fácil justificar que ele não investe nos distritos porque há poucos votos.

Um dos primeiros da nova safra de políticos, Hildon Chaves (PSDB) fez questão de abnegar o rótulo de carreirista no setor. Logo não há justificativa plausível para o problema. Todo ano é ano letivo, e todo ano precisa de veículos para transportar os estudantes.

Churrasqueira improvisada garantia alimentação dos manifestantes foto: Carlos Caldeira

O que o rondoniense pode aprender com os moradores da Ponta do Abunã é fazer manifestação. Um barraco, algumas toras de madeira e união foram suficientes para que eles fizessem a turma da prefeitura de Porto Velho se mexer.

Conseguiram fazer o secretário de educação sair do gabinete e até mesmo “ressuscitaram” um prefeito que estava off-line há semanas.

Movimento era composto por estudantes e seus pais

Ainda conseguiram deixar a Polícia Rodoviária Federal (PRF) em estado de alerta, bem como as autoridades militares do Estado. Mesmo com sobrepeso político do lado oposto da mesa de negociação, os moradores não “arregraram”.

Mostraram quem é que manda, bateram na mesa e fizeram representantes da prefeitura voltarem correndo à capital a fim de acelerar os processos para regularizar o transporte. Os fizeram cumprir o que prometeram em reuniões e palanques políticos.

O grupo passou duas noites inteiras alojados sobre a rodovia que “corta” Rondônia e só decidiram desmontar acampamento por força de uma decisão judicial, mas avisaram: se o transporte não estiver regularizado até esta segunda, 15, todo mundo volta pra cima da BR novamente.

Barraco montado para dar suporte ao grupo é desmontado; policial acompanha retirada

Veja bem o tamanho dos prejuízos individuais e coletivos causados pela Secretaria de Educação de Porto Velho: já na metade do semestre, as aulas na região ainda não começaram. Não havia ônibus e – mesmo os veículos prontos para circular na segunda, as condições das estradas estão ruins.

Os alunos perderam semanas de aulas e terão dificuldades para acompanhar o ritmo dos demais, se é que irão conseguir. Cargas chegaram atrasadas porque a rodovia estava fechada.

Inúmeros policiais e outros servidores públicos foram mobilizados na operação para garantir a pacificidade da manifestação. Pessoas que deslocavam de ônibus ou veículos próprios tiveram compromissos cancelados.

Executivos da prefeitura até tentaram, mas não conseguiram convencer o grupo a desobstruir a rodovia

O prejuízo não foi apenas dos distritos. Foi também do estado de Rondônia de um modo geral. Se um promotor que entende de educação (e de lei) não consegue colocar sua equipe pra trabalhar e fazer acontecer no setor, fica difícil calcular os prejuízos que a capital de Rondônia vem acumulando com vacilos deste nível.

Os moradores da Ponta do Abunã fizeram o que o prefeito não conseguiu fazer: colocaram todo mundo pra trabalhar, aceleraram os trâmites burocráticos, enfim… deram um choque de gestão e conseguiram, ao menos por alguns dias, tirar a prefeitura da capital do ostracismo.