O sistema religioso como conceito cultural

Foto: Associação Rumos

Criada pela razão, a ideia de um ser superior, mas inatingível por ela, que por si só no ato da criação já é: inatingível, inalcançável e inexplicável, senão pelo viés da fé e da credibilidade que determinado grupo social atribui pelo processo cultural.

O processo cultural religioso tem suas indicações a aproximadamente 60 mil anos, pelo indivíduo Neanderthal, tendo como prática o totemismo, ou cultuando animais, como sugere Emil Bächler, sendo assim umas das atividades mais antigas do homem, o culto à uma entidade superior, reforçando a ideia de que o medo sempre o levou a buscar algo além da escuridão de seus pensamentos.

O ser humano é cooptado do sistema primitivo pelas leis e a ideia de Deus, levando um conjunto de indivíduos a se agruparem e sustentarem uma sociedade pela forma de agir e pensar culturalmente.

O homem tendo a capacidade de nomear as coisas deu à religião um status de destaque e poder, por motivos óbvios, já que quem está próximo dela se protege de algo sagrado e é depósito da fé dos demais indivíduos envolvidos no processo cultural.

O entendimento do sagrado é construído a partir de algumas características como a alma, a morte, a fé, o céu, o inferno e muitos outros que ganham a partir dos indivíduos poderes que faz com que estes se agrupem e dê a eles poderes, status de invisibilidade e às vezes são difíceis de serem compreendidos; e assim apenas aceitos.

A ideia do sagrado é algo fantástico, pois quem está próximo dele está próximo do poder e cercado pelo poder, seja ele atribuído ao divino ou ao material, e assim desde as sociedades primitivas até as modernas, o homem sempre teve o desejo de estar e conhecer o poder; já que o poder divino permite um universo de possibilidades porque meche com o imaginário do ser humano. Afinal o poder lhe confere a realidade ou a proximidade do real.

Foto: Blogs.Universal.Org

O termo religião, de certa forma foi construído historicamente e culturalmente dentro da perspectiva cristã, que do latim, religio, indicava um conjunto de regras.

E dentro deste conceito eis que entra a questão da construção de algo que não se compreende, e isso se deve a questões culturais. O fato de alçar mão da compreensão da vida e seu curso apega-se àquilo que não se conhece, por exemplo, ao fato de tentar entender o que há após a morte do corpo.

Isso faz com que, uma vez que racionalmente não se consegue explicar, o ser humano entra em uma construção racional do que, como e por que existe algo além de sua compreensão que pode ser explicado apenas pelo sobrenatural, pela fé, atribuindo à responsabilidade da crença do indivíduo, já que sentir esta entidade além do natural é algo individual, e o culto é sempre coletivo.

A religião e os aspectos religiosos, não devem ser compreendidos sem o viés cultural, já que historicamente a humanidade constrói sua identidade ao passo que encontra problemas e paradigmas a serem resolvidos e quando a razão não consegue vislumbrar um norte, o aspecto sobrenatural é envolto, com seus aspectos sagrados.

O indivíduo ao se agrupar, constrói uma sociedade, que se torna uma nação e consequentemente grava na memória da humanidade o que se denomina por cultura, que diz respeito a tudo que os povos constroem ao longe das gerações e a ideia de uma entidade poderosa além da capacidade de entendimento humano, é uma dessas construções.

A fé sustenta e da credibilidade a qualquer entidade sagrada e ser sobrenatural, ele afasta qualquer dúvida, ela é tão frágil pelo fato de só por ela se sustentar a credibilidade em um criador e ao mesmo tempo tão poderosa que há dentro da “física quântica”, experimentos que mostra a capacidade que a mente possui ao usar a fé. Um exemplo é a crença de pacientes doentes com o uso de medicamentos placebos.

Negar a existência de Deus, pelo sistema metafísico, dando a ele um sentido ateísta ou agnóstico, e partir para o princípio de que o ser humano não consegue explicá-lo de forma racional é compreensível e plausível, já que dentro da construção social esta ideia é a única entidade poderosa, monoteísta.

A religião católica e suas dissidências a partir do século XVI com Martim Lutero construindo a teoria protestantista, mas, não há como negar essa construção pelo princípio da fé, já que essa recebe o significado conceitual de extrema confiança e credibilidade em algo que se conhece ou se explica.

Esse princípio de fé percebe-se em (Hebreus 11:1) “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” e se é algo que não se vê, não se pode pôr a prova da razão, e sim apenas no campo metafísico e do sagrado.

O conceito da morte está envolto à ideia de uma entidade superior, uma vez que a preocupação do homem em querer ir além do que sua mente pode ir, faz com que ele elabore um sofisticado sistema de pensamento que leva a pensar sobre a perspectiva além da vida e esta se resume ao fim da atividade cerebral e das atividades vitais do organismo, e em vias de atribuir uma alma ao corpo este estaria ligado a Deus.

Descartes faz menção de que a alma estaria ligada ao corpo pela glândula pineal, levando a uma ideia de que havia uma prova de um ser superior algo palpável a se apegar nesta construção social.

Assim se o indivíduo não seguir as “normas” sagradas este pode ir ao inferno e não ao paraíso, conceitos criados concomitantemente uma vez que estes espaços serão atribuídos a indivíduos que farão suas escolhas, pelo livre arbítrio e sua vontade (Agostinho de Hipona).

Racionalmente e materialmente a alma não pode ser explicada, ficando apenas na conceituação metafísica, sendo que classificada como abstrata, seria apenas conteúdo da memória, e já que tudo aquilo que cada indivíduo construiu ao longo de sua vida em termos de aspectos religiosos fica gravado em sua memória.

Ao morrer se torna uma extensão da memória do outros, principalmente familiares e pessoas mais próximas, e ao passar do tempo se renova o contexto da memória e se o resquício de memória do outro não for rememorada com o tempo as lembranças se perdem e com ela a alma do outro que havia falecido. Pense na lembrança de uma pessoa que viveu há muito tempo! A cada dia que se passa as lembranças ficam mais escassas.

Mas nesta mesma linha de raciocínio, há uma incoerência, uma vez que se o analisarmos conceitualmente, lúcifer é uma obra de Deus, que se entregou às trevas e ao pecado assim como o homem uma obra de Deus incorreu ao mesmo erro, foi às trevas e ao pecado, ambos buscando o poder e a cobiça.

Logo, um dos fatores que faz com que o homem atribua poderes a um ser desconhecido, o medo, não deveria ocorrer uma vez que: se assim como lúcifer (homem-anjo) e adão (homem-anjo) e ambos cometem os mesmos erros e são punidos por Deus.

Não há por que temer lúcifer já que o mesmo é obra do todo poderoso e com ele nada pode, e se ele o fez (homem), o fez sabendo de todas suas virtudes e vícios, erros e acertos a cometer ao logo da vida, assim como o apóstolo Judas, que foi um dos mais importantes para o mundo do sagrado/sacrifício, já que Cristo sabia o que ia acontecer, e não se afastou, não o afastou e nem o puniu com seu poder, porque a vida de Judas estava planejada pra ser justamente aquilo.

Partindo desta premissa, em que momento o homem convenceu o homem de que o todo poderoso é impiedoso e lhe punirá, uma vez que ele já planejou o que cada um será e fará na terra, não seria de repente uma reserva de fieis a serem angariados ou uma reserva de recursos? Afinal se a maioria das pessoas tivesse esse entendimento, é lógico, sem desvirtuar do princípio básico que insere o homem fora do estado primitivo, o que seria das estruturas religiosas?

Seguindo esta linha de pensamento tal fato se dá por ser Deus natureza naturante e suas extensões a natureza naturada segundo Baruch de Espinosa.